I Congresso Internacional

Diálogos entre Brasil e Portugal

O ensino artístico que temos e o que queremos

7 a 11 de setembro de 2020

Universidade do Porto

Apresentação

Realiza-se nos dias 7, 8, 9, 10 e 11 de setembro de 2020, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto um Congresso Internacional, organizado por instituições de ensino e de investigação do Brasil e de Portugal, promovido no âmbito do relacionamento que ao longo dos tempos se foi estabelecendo entre professores/investigadores, nestas geografias, procurando entender, a partir das suas práticas e dos resultados de suas investigações, o movimento que se sabe necessário entre a análise d’o ensino artístico que temos e a ousadia de avançar para o ensino artístico que queremos.

Neste Congresso vai apresentar-se uma representativa parte da comunidade de pesquisadores(as), professores(as) e estudantes de ambos os países (assim como de interessados de outros países) procurando dinamizar fortes Diálogos entre Brasil e Portugal, mapeando os questionamentos sobre as práticas do ensino artístico nos dois países, para sobre eles tecer uma consciência epistemológica que clarifique as possibilidade de mudança e ajustamento aos dilemas contemporâneos, numa vinculação política a um esforço descolonial, alargando-o para a valorização da língua portuguesa nos territórios da investigação internacional.

A proposta de organização deste Congresso nasceu da partilha de inquietações sobre o ‘estado da arte’ da educação artística, ocorrida no XXIX Congresso da FAEB, em Manaus (2019), e congrega a presença de significativos investigadores de ambos os países, de conferencistas convidados e dos demais participantes que nele se venham a inscrever.

O programa apresenta as várias modalidades em que se organiza o Congresso.

Nova data

à distância, contra as distâncias

Congresso Internacional: Diálogos entre Brasil e Portugal — O ensino artístico que temos e o que queremos

Razões inesperadas e por todos conhecidas pela dimensão da pandemia, originaram a suspensão do Congresso, inicialmente programado para 22 e 23 de maio de 2020, na Universidade do Porto.

A Comissão Científica, decide reprogramar o Congresso para os dias 7, 8, 9, 10 e 11 de setembro de 2020, entendendo ser possível a sua realização conjugando dinâmicas presenciais com as possibilidades de comunicação à distância, mantendo os mesmos objetivos.

Nessas novas condições, o programa do Congresso manterá a apresentação das conferências, comunicações em sessões paralelas e rodas de conversa, anunciadas anteriormente, e será integralmente transmitido em sistema aberto on-line em live streaming.

Os/as autores/as que tiveram suas comunicações aceites são convidados/as a manterem a sua presença, podendo optar por utilizarem a tradicional apresentação oral presencial, ou enviando um vídeo com a comunicação e participando em direto numa sala on-line, em sistema de sessões paralelas.

A realização do Congresso seguirá as recomendações e as normas da Universidade do Porto para a utilização dos seus espaços.

Chamada de trabalhos

O Congresso, para além das conferências e das rodas de conversa, aceita a submissão de propostas para comunicações orais inscritas nos questionamentos e problemáticas do Congresso, e decorrerão em sessões paralelas, nos horários indicados no programa.

As propostas deverão ser submetidas no formulário online, com texto entre 300 a 1000 palavras. As comunicações deverão ter duração máxima de 15 minutos.

Novas Datas Importantes

Submissão de trabalhos:
1 a 28 de fevereiro de 2020
Notificação dos trabalhos aprovados:
11 de março de 2020
Inscrições:
Até 30 de julho de 2020, através do formulário online
Confirmação da apresentação (com o respetivo pagamento da inscriçao e envio do vídeo para oradores confirmados):
Até 30 de julho de 2020
Realização do congresso:
Entre 7 e 11 de setembro de 2020

Inscrições

As inscrições permitem a participação presencial e/ou nas salas on-line, conferindo certificado de participação.

Até 30 de julho de 2020, através do formulário online

Valor:
50 euros*
* estudantes 50% de desconto (devem submeter comprovativo em anexo)

Os participantes que pretenderem estar presentes devem assinalar no formulário, uma vez que será necessário preparar a sala que terá uma lotação limitada.

Programa

Local presencial:
Auditório (Aula Magna) da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. *
Assistência online:
Link da conferência na plataforma zoom a facultar por email aos participantes inscritos na véspera do evento
Live streaming no canal do i2ADS no Youtube
* Mediante a inscrição e a lotação da sala para realizar as atividades em segurança.

 

7 de setembro

16–18h PT / 12–14h BR (Presencial e online) Abertura

Apresentação pública dos objetivos do Congresso e dos processos em que irá decorrer.

Professor Doutor Paulo Luís Almeida (i2ADS/FBAUP)
Professora Doutora Roberta Puccetti (FAEB)

Conferências

“Arte/Educação na América Latina e no Brasil”, Ana Mae Barbosa (USP/Anhembi-Morumbi).

“O ontem, o hoje e o amanhã do ensino das Artes Visuais em Pernambuco”, Maria das Vitórias Negreiros do Amaral (PPGAV/UFPE).

“Inscrever a Arte e a Educação Artística numa Prática Descolonial”, José Carlos de Paiva (i2ADS/FBAUP)

 

8 de setembro

16–18h PT / 12–14h BR (Presencial e online) Conferência Principal

“As viagens dos sentidos: as lutas pela dignidade na reinvenção dos saberes”, Bruno Sena Martins (CES/UC)

Roda de Conversa #01

Moderação de Paulo Nogueira (i2ADS/FPCEUP)

“Luminescências: imagens, imaginação e outras pequenas revoluções políticas para uma poética de formação docente”, Rita Bredariolli (IA/UNESP)

“Ana, Paulo e John: por uma filosofia descolonial da arte através da educação”, José Afonso Medeiros Souza (UFPA)

“Sendo 'killjoy': um olhar crítico de uma investigadora em educação artística sobre o Plano Nacional das Artes”, Catarina S. Martins (i2ADS/FBAUP)

"A partir do que for dito", Jorge Ramos do Ó (IEUL)

 

9 de setembro

16–18h PT / 12–14h BR (Online)

Mesas Redondas

Mesa Redonda #01

Moderação de Sidiney Peterson Ferreira de Lima

“A arte como ferramenta de descolonização”, Liliana Regina Ghirardello Dell'Agnese (Anhembi-Morumbi)

“Confluências entre a abordagem triangular do ensino das artes e culturas visuais e a educomunicação, como proposta decolonial para uma arte/educação que queremos”, Mauricio Virgulino Silva (USP)

“Territórios da invenção artística: As poéticas de Anna Bella Geiger e Grada Kilomba”, Francisca Rosália Silva Menezes (UNILAB)

“O ensino do Desenho na perspectiva descolonial”, Francisco Angelo Meyer Ferreira, Carlos Henrique Romeu Cabral, Demison Costa da Silva e Élyde Regina de Santana (IFPE)

“Arte na educação: uma mirada foucaultiana”, Kelly Sabino (USP)

 

Mesa Redonda #02

Moderação de José Carlos de Paiva

“A escuta entre nós: reflexões a partir das vozes das comunidades”, Flávia Wanderley Lira (FBAUP)

“Africanidades e afrodescendências, narrativas, práticas epistemológicas desfronteiriças que banham sujeitos, linguagens, políticas e memórias”, Juliana Holanda e Kiusam Regina Oliveira (ISCTE-IUL, UFES)

“A planta de algodão frente aos monocultivos da mente – entre nordeste brasileiro e ilha de São Vicente”, Rita Rainho (i2ADS/FBAUP)

 

“Sistematização da prática docente de trabalho somático para as artes cênicas”, Renata Bittencourt Meira (IA/UFU, CHAIA/UE)

“O que é uma ária? ou a utilização da linguagem operática nos espectáculos infantis”, Mário João Alves (FBAUP)

“Ka-A: e mata me chama”, Mariana Kellermann (UFPA)

“Live-installation: estratégias estéticas em tempos de sustentabilidade global”, Nádia Saito (CRC)

 

Mesa Redonda #03

Moderação de Catarina Almeida

“Da energia ruidosa do Plano ao cansaço da Escola”, Mário Azevedo (i2ADS/ESMAE)

“A Educação Artística nos primeiros anos da Educação Básica no Brasil”, Edite Colares Oliveira Marques (UECE)

“As Diretrizes Curriculares nacionais para o Ensino Médio Brasileiro”, Pedro Miguel Aoki Sugeta (UEL, FBA/UVIGO)

“A formação do professor de artes e as ‘competências’ nos documentos oficiais do Brasil”, Ana Marcia Akaui Moreira e Isabel Bezelga (UNISANTOS, UE)

 

Mesa Redonda #04

Moderação de Margarida Dourado Dias

“Relatos Ficcionais e Ficções (re)Inventadas: Um relato sobre a orientação de dois TCCs sobre animação e Amazônia”, Márcio Lins de Carvalho (UFPA)

“ARTESANeando identidades: experiências em arte educação com artesanias”, Rita Inês Petrykowski Peixe e Amélia Maña Domes (IFSC, IEA Oriol Martorell)

“Enter@rte: Proposta educacional para ensino da Pop Art”, Sandra Regina Paula de Souza (PPGARTES/IFCE)

“Entre arte, raízes e artesania: Lucia Loren sobre o pensar as sutis relações da vida”, Rita Inês Petrykowski Peixe e Rita Noguera (IFSC)

“Para uma aprendizagem incompleta – O desenho e a recusa em ser obra” Paulo Luís Almeida, Sílvia Simões e J. Jorge Marques (i2ADS/FBAUP)

 

Mesa Redonda #05

Moderação de Mariana Delgado

“Dentro da escola é tudo mais bonito, mas é preciso respirar”, Ilda Cristiana Lima de Sousa (i2ADS/FBAUP)

“O contributo da atividade artística e patrimonial para a educação”, Olga Sotto (CIEBA)

“Fundação Côa Parque em harmonização com a Educação Formal da Secretaria de Educação do Distrito Federal”, Adriana Prado, Adriana Andrade, Carlos Rodrigues e Isabel Felipe (UE, SEEDF)

“Problematizações de uma investigação em educação artística diante do arquivo pessoal de Elvira Leite”, Amanda Midori (i2ADS/FBAUP)

“A pesquisa como prática pedagógica na formação docente”, Luciana Barros (IFMA)

 

Mesa Redonda #06

Moderação de Tiago Assis

“Entr(e)folhas: Um oficina como atividade reflexiva”, Viga Gordilho e Teresa Almeida (EBA/UFBA, VICARTE, FCT/UNL, i2ADS/FBAUP)

“Tendências eco-necessárias no actual ensino das Artes Visuais em Portugal e o potencial de um exploratório trans-cultural”, Elisabete S. Oliveira (CIEBA/FBAUL, IEUL)

 

10 de setembro

16–18h PT / 12–14h BR (Presencial e online)

Roda de Conversa #02

Moderação de Alexandra Sá Costa (CIIE/FPCEUP)

“Ensino de arte no Brasil: inventariando o que temos, o que queremos e o que não queremos ter”, Leda Guimarães (UFG)

“Histórias para mapear o ensino artístico que temos e vislumbrar o que queremos”, Rejane Galvão Coutinho (IA/UNESP)

"Síndrome de Porthos: Da crítica à paralisia e a paralisação como crítica e desnaturalização do dever-ser professor", Tiago Assis (i2ADS/FBAUP)

“Imersões e inversões: possibilidades poéticas e estéticas para processos de formação docente”, Sidiney Peterson Ferreira de Lima (IA/UNESP)

 

11 de setembro

16–18h PT / 12–14h BR (Presencial e online) Fecho. Encontro por Zoom de membros da Comissão Científica e debate aberto.

Conferencistas Convidados

Anna Mae Tavares Barbosa (USP/Anhembi-Morumbi)

É educadora, professora, pesquisadora e escritora. É pioneira nos estudos de arte e educação no Brasil. Possui graduação em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (1960), mestrado em Art Education - Southern Connecticut State College (1974) e doutorado em Humanistic Education na Boston University (1978). Atualmente é professora titular aposentada da Universidade de São Paulo (USP) e professora da Universidade Anhembi Morumbi. Tem experiência na área de Artes, com ênfase em Arte/Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: ensino da arte e contextos metodológicos, história do ensino da arte e do desenho, ensino do design, administração de arte, interculturalidade, pedagogia visual, estudos de museus de arte, mediação cultural e estudos visuais. http://lattes.cnpq.br/1650414096296319

Arte /Educação na América Latina e no Brasil
Basearei minha comunicação em uma série de dúvidas que ameaçam minha mente acerca da Arte/Educação na América Latina e no Brasil que teima em não se ver como um país Latino Americano apesar das atividades do Mercosul que vem se empenhando em estreitar nossos laços culturais. Serão questões como essas que gostaria de debater: O que caracterizaria historicamente e contemporaneamente a Arte/Educação na América Latina? Pensando em conquistas significativas no campo da Arte/Educação na América Latina, que países, estados ou cidades podemos destacar? No contexto latino-americano atual o que podemos considerar como desafios a serem superados no campo da Arte/Educação? Quais os maiores perigos que ameaçam a Arte/Educação principalmente o Brasil?

Bruno Sena Martins (CES/UC)

Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES/UC). É licenciado em antropologia e doutorado em sociologia. É Co-coordenador do Programa de Doutoramento "Human Rights in Contemporary Societies" e Docente no Programa de Doutoramento "Pós-Colonialismo e Cidadania Global". É Co-coordenador no Programa de extensão académica "O Ces vai à Escola". Entre 2016 e 2019 desempenhou no CES as funções de Vice-presidente Conselho Científico do CES/UC e entre 2013 e 2016 foi Co-coordenador do Núcleo "Democracia, Cidadania e Direito" (DECIDe) do CES/UC. Os seus temas de interesse preferenciais são: corpo, deficiência, direitos humanos e colonialismo. https://ces.uc.pt/pt/ces/pessoas/investigadoras-es/bruno-sena-martins

As viagens dos sentidos: as lutas pela dignidade na reinvenção dos saberes
A descolonização do conhecimento e da educação depende crucialmente do reconhecimento das histórias, dos corpos e das subjetividades que, em cada tempo, se mobilizam na definição de novas gramáticas de dignidade humana. Os corpos-sujeitos violentados pelo curso da modernidade têm em si a arte de alargar os horizontes de justiça e, com eles, os nossos saberes, interculturalidades e epistemologias insurgentes.

Catarina S. Martins (i2ADS/FBAUP)

Catarina Sofia Silva Martins, 1980. Degree in Fine Arts - Painting from the Faculty of Fine Arts, University of Porto (2003). Master in Arts Education at the Faculty of Fine Arts, University of Lisbon (2007). PhD in Education, Institute of Education, University of Lisbon. FCT Research Fellow (2007-2011). In 2008 and in 2010 was Honorary Fellow in the Department of Curriculum and Instruction - Faculty of Education, Wisconsin-Madison University. In 2009 she was Visiting Scholar at the Centre for Educational Sociology, University of Edinburgh. Since 2010 she is Professor at the Faculty of Fine Arts, University of Porto, teaching at a post-graduate levels in Arts Education. Since 2015 she is the Director of i2ADS - Research Institute in Arts, Design and Society. She is also a Member of the group in History of Education, Institute of Education, University of Lisbon and Link Convenor of the European Network 29: Research on Arts Education, European Educational Research Association. She co-coordinated the study on Public Policies in Arts Education in Portugal, which consisted of a study on the state of the curricular implementation of arts education at the primary school. She is currently coordinator of the Erasmus + CREARTE project - Creative School Partnerships with Visual Artists, involving 5 European countries (Portugal as the coordinator, Spain, United Kingdom, Sweden, Cyprus) and an international organization (INSEA). In the past, she participated, as researcher, in projects funded by FCT. Her writings include articles and chapters in Scopus, the most recent being 'From Scribbles to Details: the Invention of Stages of Development in Drawing and the Government of the Child' (2017) published in A Political Sociology of Educational Knowledge: Studies of Exclusions and Difference, by Routledge, and the introduction for a book by the Calouste Gulbenkian Foundation, on arts education. https://i2ads.up.pt/blog/author/cmartins/

Sendo 'killjoy*': um olhar crítico de uma investigadora em educação artística sobre o Plano Nacional das Artes
Em 2019 foi apresentado publicamente, pelos Ministérios da Cultura e da Educação, o Plano Nacional das Artes. O documento visa determinar o rumo da educação artística em Portugal para os próximos 5 anos, sob o lema 'uma estratégia, um manifesto', e antecipando o seu próprio desaparecimento como parte de uma política sustentável. São vários os documentos com os quais este Plano se alinha, quer a nível nacional, quer internacional. Na comunicação social, o Plano Nacional das Artes tem tido um espaço de promoção importante, sem que, no entanto, se venham colocando em questão os princípios fundadores deste Plano, numa perspectiva histórica e de investigação. A leitura e análise que realizarei deste documento sublinhará fragilidades na sua ancoragem teórico-prática em educação artística, e o uso recursivo de slogans de sedução assentes em jargões como 'criatividade', 'incerteza', 'autonomia', 'comunidade', bem como a perpetuação de práticas universalizantes a partir de uma visão particular da educação, da arte e da cultura. Nesta intervenção serão analisados criticamente as premissas e valores, os objectivos, e os princípios estratégicos e eixos nos quais assenta, denunciando-se o seu carácter universalizante e o alinhamento com as agendas neoliberais para a educação. Terminarei com as questões com que encerra o próprio Plano, deslocando-lhes o objecto e as respostas. Em suma, perante o aparato de sedução criado em torno deste Plano Nacional das Artes, uma crítica ao seu carácter dominador e governamental, trará um olhar desiludido porque politicamente comprometido com outros sentidos para a educação artística.

*escolhe-se manter o conceito de 'killjoy', de Sara Ahmed, em inglês, por não se encontrar, no português, uma expressão equivalente e com a mesma força política (a expressão mais aproximada seria 'desmancha-prazeres')

Leda Maria de Barros Guimarães (UFG)

Possui graduação em Licenciatura Plena Em Educação Artística pela Fundação Armando Álvares Penteado (1985), mestrado em Educação pela Universidade Federal do Piauí (1995) e doutorado em Artes pela Universidade de São Paulo (2005). Pós Doutorado na Universidade Complutense de Madrid. É professora da Universidade Federal de Goiás atuando nos cursos de Licenciatura em Artes Visuais e no Programa de Pós Graduação em Arte e Cultura Visual. Criou e coordenou o curso de Licenciatura em Artes Visuais na modalidade EAD. Tem pesquisado formação de professores em artes visuais, arte e cultura popular, ensino de arte e comunidades. Ex-presidente da Federação de Arte Educadores do Brasil - FAEB - vigência 2017/2018. É membro do InSea (International Society for Education through Art) e do CLEA - Consejo Latinoamericano de Educación por el Arte. http://lattes.cnpq.br/1491866271915819

Ensino de arte no Brasil: inventariando o que temos, o que queremos e o que não queremos ter.

Considerando o mote “O Ensino artístico que temos e o que queremos” para ativar diálogos entre Brasil e Portugal, minha proposta para este evento é a inventariar conquistas (o que temos), concepções (o que queremos) presentes na cena do ensino artístico no Brasil procurando um olhar abrangente sobre permanências, transformações e resistências nas práticas, discursos e reinvindicações de profissionais dessa área no Brasil.

Das conquistas históricas o ponto de partida do nosso inventário é o reconhecimento da arte como disciplina obrigatória no currículo (Lei de Diretrizes e Bases- LDB/96) da educação básica indicando outros momentos como por exemplo, a Lei 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, públicas e particulares, do ensino fundamental até o ensino médio. Esta lei foi alterada pela Lei 11.645/08, para incluir a obrigatoriedade da temática da indígena e em 2017, foi revogada.

No inventário do “que temos” vamos citar a expansão da oferta de cursos de formação de professores em artes, a criação de cursos de Licenciatura em Dança e Teatro, a maior integração com a formação de pedagogos que atendem a primeira infância, a existência do livro de artes no PNLD- Programa Nacional do Livro Didático, o percentual de profissionais com formação continuada (pós-graduação), a existência de uma Federação de Arte Educadores no Brasil com 32 anos de existência que realiza um evento nacional a cada ano desde 1987, a atuação de outras entidades de classe tais como a Associação Nacional de Dança - ANDA, Associação Brasileira de Artes Cênicas-ABRACE, a Associação Brasileira de Educação Musical –ABEM e a Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas – ANPAP, dentre outras associações, tem promovido eventos contínuos que se configuram em espaços de formação continuada e palco de formação identitária de profissionais dessas linguagens específicas. Também podemos citar a expansão do campo de atuação profissional com a criação dos Institutos Federais em todo o território nacional gerando prática de educação em arte vinculadas com a especificidade do ensino técnico profissionalizante. Nos cursos de Formação Superior, programas de apoio à docência tais como PIBID e de apoio a pesquisa como o PIBIC criaram espaços interatuantes entre o percurso formativo e a atuação na educação básica, tempo simultâneos de aprendizagem. Vale mencionar a atuação de arte educadores na Educação de Jovens e Adultos – EJA e em contextos não formais de educação tais como ONGs e outros projetos de cunho social. Outro fato a ser mencionado é o crescimento da capacidade de publicação (em periódicos, anais e livros) fomentando a produção e circulação do conhecimento entre professores, pesquisadores e artistas.

Compreender o impacto do multiculturalismo na educação, as questões da diversidade social, étnica, de gênero e se opções afetivas, compreender e vivenciar as transformações das tecnologias e da rede www tornou-se uma condição sine qua non em nossas vidas docentes. Enfrentamos os dilemas da busca de uma formação humanística, não tecnicista, uma formação para uma vida ética e estética. O século XXI trouxe as pedagogias pós críticas e a diversidade de caminhos para o ensino de artes. Novos campos conceituais e nomenclaturas surgem e nos desafias: Educação crítica de imagens, Educação Intercultural, e-arte educação, educação e mediação cultural e tantas outras possibilidades para o exercício docente. As pedagogias culturais em especial, colocaram em cena relações entre ensino de arte e vida, se interessam pelo cotidiano, pela arte marginal, pelas culturas juvenis, pela arte das minorias ou culturas visuais do povo, pelas tecnologias, pelo meio ambiente, etc.

Temos vivido desde 2017 desmanches, impasses, atritos, e descompassos em termos de objetivos, campo de atuação, de formação, concepções sobre diversidades, etc. Penso ser fundamental termos consciência do que temos, para enfrentarmos o que não queremos, especialmente nesse momento político, em que essas conquistas estão sendo ameaçadas por uma agenda neoliberal do governo federal na qual, arte, educação humanista e cultura não fazem parte de seus objetivos. Apesar disso, perguntamos: como o caminho já construído, com todos seus conflitos, pode nos apontar formas de (re) existências na busca de combater o colonialismo intelectual o qual, segundo Ana Mae Barbosa (2016), impera na Arte/educação e na formação docente em arte no Brasil.

Maria das Vitórias Negreiros do Amaral(PPGAV/UFPE)

Pós-Doutora em Arte/educação e Feminismo pelo Instituto de Investigaciónes Feministas de la Universidad Complutense de Madrid (2012). Doutora em artes pela Universidade de São Paulo (2005). Mestre em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco (2000). Graduada em Educação Artística pela Universidade Federal de Pernambuco (1987). Atualmente é Coordenadora do Programa Associado de Pós-Gradução em Artes Visuais UFPE/UFPB e professora do curso de Artes Visuais da UFPE. É Vice-Líder do Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas sobre o Imaginário.Tem experiência na área de Artes, com ênfase em arte/educação, atuando principalmente nos seguintes temas: arte/educação, gênero, cultura, educação e antropologia do imaginário. Foi Presidente eleita da Federação de Arte/educadores do Brasil (FAEB) (2013-2015), da Red Iberoamericana de Representaciónes y Imaginários (RIIR) e eleita em 2019 uma das três componentes da Comissão Diretora do Consejo Latinoamericana de Edcuación por la arte (CLEA).http://lattes.cnpq.br/3317479462307817

O ontem o hoje e o amanhã do ensino das artes visuais em Pernambuco
Tratarei, nessa fala, de três momentos do ensino da arte em Pernambuco, vivenciados por mim profissionalmente, a partir dos quais vou relacionando-os às Leis e Diretrizes de Bases Nacionais (LDB)/Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN)/Base Nacional Comum Curricular(BCC) e as mudanças que ocorreram nesses quarenta anos (1980-2020). O primeiro momento, na década de 1980, quando iniciei a docência na Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco (SE-PE), como professora de Arte, iniciou-se também o cumprimento da Lei de Diretrizes e Base 5692/1971. Como vivenciamos este ensino na nossa formação? Que teorias utilizamos? Como eram as nossas práticas artísticas? Todos/as nós formadores/as de professores/as de arte com uma formação profissional e política tendo como mentora a Profa. Ana Mae Barbosa e seus referenciais (Paulo Freire e Noemia Varela), suas teorias/livros/pesquisas, sejam em suas palestras ou cursos. Ana Mae, nesses encontros, provocava posicionamentos críticos e leituras de mundo diferenciadas. São contaminações com o ensino da arte e suas teorias, nos encontros e congressos como os Confaeb’s (Congresso da Federação de Arte/Educadores do Brasil), trocas de experiências e conhecimentos que acontecem até os dias de hoje. Segundo momento, discorrerei sobre como estamos, nas escolas públicas do estado de Pernambuco atualmente, de acordo com pesquisas realizadas na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com pesquisadores/as e estudantes de Pibic, TCC e dissertações de mestrado em Artes Visuais. Com as Leis já “consolidadas”, pós a LDB 9394/1996 e mudanças ocorridas entre 1980 e 1996, por um lado, fazem com que a Secretaria de Educação afirme a existência das Artes nas escolas, por outro não consideram horários, espaços decentes para essas aulas ocorrerem. Além de, principalmente, não haver exigência de professores e professoras com formação específica para assumirem essas aulas. Neste contexto, há uma inexistência de uma política pública, de concursos e com uma gerência de educação que cumpra a Lei de fato. E, por último, como queremos transformar? Como estamos formando, atualmente esses/essas professoras e professores? Que teóricos? Que práticas? Quem são esses professores em formação? Compreendendo que a ideologia de um momento ou de um lugar que impregnou os fundamentos da disciplina histórica e política é requisito fundamental para uma sociedade mais justa, tentamos um ensino de arte mais consciente dos estereótipos, dos preconceitos em relação a gênero, raça, cor, idade, capacidade, sexualidade, classe, etnia e outras diversidade humanas, valorizando a colaboração interpessoal.

Jorge Ramos do Ó (IEUL)

Jorge Ramos do Ó é Professor Associado com agregação no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa e professor convidado na Universidade de São Paulo, onde tem lecionado sobretudo nas áreas da história da educação, história cultural, análise do discurso e pedagogia universitária. As suas publicações incluem estudos em história cultural e política, com ênfase particular no período do Estado Novo (1933-1974), bem como em história da educação e da pedagogia em Portugal, analisadas numa longa cronologia (séculos XIX e XX). Para além de diversos artigos, comunicações e trabalhos em co-autoria, tanto em revistas científicas como em monografias, publicou os seguintes livros: O lugar de Salazar: Estudo e Antologia, 1990, Os anos de Ferro: O Dispositivo Cultural durante a política do Espírito(1933-1949), 1999, O Governo de si mesmo: Modernidade Pedagógica e Encenações Disciplinares do aluno Liceal (último quartel do século XIX – meados do século XX), 2003, Modernidade Pedagógica: Estudos Comparados Portugal-Brasil (1820-1960), 2008, e Ensino Liceal (1836-1975), 2009. Coordenou projetos de investigação financiados por instituições como a Casa Pia de Lisboa, o Ministério da Educação e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia. https://www.cienciavitae.pt/911B-CF64-F53C

José Afonso Medeiros Souza (UFPA)

Paraense de Belém, Afonso Medeiros é Professor Titular de Estética e História da Arte do Instituto de Ciências da Arte da Universidade Federal do Pará, Bolsista Produtividade em Pesquisa do CNPq e coordenador do GP ?Arte, Corpo e Conhecimento? do PPGArtes-UFPA/CNPq. Graduado em Educação Artística/Artes Plásticas pela Universidade Federal do Pará (1985); especialista em Artes/História da Arte pela Universidade de Shizuoka (Japão, 1988), com monografia sobre a arte e o design tradicional japonês; mestre em Ciências da Educação/Arte-Educação, também pela Universidade de Shizuoka (1996), com dissertação sobre o ideograma como signo estético; e doutor em Comunicação e Semiótica/Intersemiose na Literatura e nas Artes pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2001), com tese sobre a gravura japonesa dos séculos XVIII e XIX como crônica visual, sob a orientação de Lucia Santaella. Autor de "O Imaginário do Corpo entre o Erótico e o Obsceno: Fronteiras Líquidas da Pornografia" (2008) e "A Arte em seu Labirinto" (2013), tem publicado diversos capítulos de livros e artigos, principalmente nos seguintes temas: artes visuais, semiótica, cultura japonesa (artes visuais, teatro, literatura), teorias da arte (filosofia, crítica e história) e arte/educação. Foi bolsista do Ministério da Educação, Ciência e Cultura do Japão (MONBUSHO, 1986-88 e 1992-96), da CAPES (1997-2001 e 2003), da Fundação Japão (2000) e da Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa (2015). Foi membro da equipe de pesquisadores brasileiros e alemães (convênio CAPES/DAAD) que efetivou o projeto "Relações palavra-imagem nas mídias", com estágio na Universidade de Kassel (Alemanha) em 2003. De 1998 a 2000 pesquisou o acervo de gravuras japonesas do Instituto Moreira Salles, cujos resultados constam de sua tese e de várias publicações. É membro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas (ANPAP, Comitê de Teoria, Crítica e História da Arte), da Federação de Arte-Educadores do Brasil (FAEB) e da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA). Também é (ou foi) membro dos conselhos editoriais das seguintes publicações: Art& (revista digital), Argumento (SP), Cartema (PE), Desenredos (GO), Gearte (RS) e do Art Research Journal. Foi avaliador ad hoc do Instituto de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP/MEC), para cursos de Artes Visuais e Design (2005-2009). Foi co-fundador, vice-presidente e presidente da Associação de Arte-Educadores do Estado do Pará (AAEPA, 1989-91); Vice-presidente (1990-92) e Diretor de Assuntos Institucionais (2011-12) da Federação de Arte-Educadores do Brasil (FAEB); e Presidente (2013-14) da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas (ANPAP). Foi Coordenador do Núcleo de Artes (2002-05), Diretor-Geral do Instituto de Ciências da Arte (2006-10) e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Artes (2010-14) da UFPA; membro do Conselho Superior da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Pará (FAPESPA, 2008-10) e membro do Conselho do Instituto de Artes de Pará (IAP, 2011-14). Dirigiu o Departamento de Ação Cultural do Município de Belém (FUMBEL, 1991-92), ocasião em que presidiu a comissão de criação do Museu de Arte de Belém (MABE). Criou e organizou os I e II Fórum Bienal de Pesquisa em Arte (2002/2004) e os 1º e 2º Colóquio Interartes (2010/2011). Organizou os 22º e 23º Encontro Nacional da ANPAP (2013/2014) e co-organizou vários eventos científicos na área de artes, no Brasil e no exterior. http://lattes.cnpq.br/6045766440369156

Ana Paulo e John: Por uma filosofia descolonial da arte através da educação
Tendo como base a abordagem triangular proposta por Ana Mae Barbosa e considerando dois pensadores que são caros à arte-educadora e arte-historiadora brasileira, este ensaio propõe uma reflexão estética sobre a arte como potência desestruturante do pensamento dualístico que impregna certa perspectiva epistemológica que ainda anima as práticas educacionais.

Fazer, ler, contextualizar. Três verbos no infinitivo. Três signos verbais que denotam ação e agenciamento. Estas palavras que resumem a Abordagem Triangular proposta por Ana Mae Barbosa já foi, em sua proposição inicial, chamada de Metodologia Triangular e calcada na interseção entre “o fazer artístico, a apreciação da arte e a história da arte. Nenhuma das três áreas sozinha corresponde à epistemologia da arte” (Barbosa, 1999, pp. 31-32). Entre “a produção, a estética e a história” do “método” inicial e “o fazer, o ler e o contextualizar” da “abordagem”, todo um ciclo de amadurecimento de um conceito pode ser percebido a partir de uma calibragem epistemológica (inerente à origem do próprio conceito) que, entre outras coisas, coloca em xeque algumas ideias caducas de arte, de educação e de dualismo do processo cognitivo.

Nessa empreitada, Barbosa vem operando um peculiar refinamento entre Paulo Freire e John Dewey, eles mesmos críticos contundentes dos sistemas educacionais voltados mais para a “transcendência” do que para a “imanência” da presença humana no mundo ou, para ser mais exato, críticos de uma filosofia da educação abstracionista, descolada/deslocada do contexto cultural. Partindo de Barbosa através de Freire e Dewey, podemos percorrer cartografias filosóficas imperceptíveis à primeira vista. Por exemplo: Barbosa que leu Dewey, que leu Peirce, que leu Kant, que leu Hume que... era um empirista.

De fato, tanto Barbosa quanto Freire e Dewey (e Hume outrora), o contexto e a experiência são a base de tudo. É do contexto que sai (e para ele retorna) toda e qualquer feitura e leitura de mundo. Da publicação de A imagem no ensino da arte (1991) à publicação de A abordagem triangular no ensino das artes e culturas visuais (2010), não foi só a nomenclatura dos vértices triangulares que sofreu variações, mas toda uma concepção do processo de ensino/aprendizagem foi sendo amadurecida. Em primeiro lugar, no escopo: de “ensino da arte” para “ensino das artes e culturas visuais” de acordo, inclusive, com as práticas de Barbosa à frente do Museu de Arte Contemporânea (USP/SP) nos anos 1980, fonte primeira dessa sistematização.

Neste ensaio, a reflexão sobre o processo de amadurecimento da abordagem barbosiana tem, pelo menos, duas premissas: 1) todo conceito também é orgânico e, portanto, não só moldável pelo ambiente como também potencialmente influente no ambiente no qual se situa; 2) todo conceito aponta para dois contextos: um sincrônico (aquele que viu a formulação do conceito) e outro anacrônico (aquele referido pelas ideias-chave do próprio conceito e que, neste caso, passam por Freire e Dewey e, através destes, vão além). Em outras palavras, todo conceito traz consigo uma herança genética absorvida, reciclada e refinada por contextos temporais e espaciais historicamente referenciáveis e que, no momento mesmo de suas atualizações imanentes, vai (re)tecendo a urdidura de sua própria capacidade de ser transcendente.

Em suma, perceber e discutir a abordagem triangular em (seu) campo histórico e epistemologicamente ampliado é o intuito primeiro deste ensaio. Assim poderemos, talvez, vislumbrar a potência descolonizadora de tal método/abordagem tanto para a arte quanto para a educação.

José Carlos de Paiva (i2ADS/FBAUP)

Nascido no Porto em 1950. Doutor em ‘Pintura’, Mestre em ‘Arte Multimédia’ e Licenciado em ‘Artes Plásticas – Pintura’ pela Universidade do Porto — Faculdade de Belas Artes. Professor Auxiliar e ex-director da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto; ex-director do Programa Doutoral em Educação Artística. Investigador Integrado do i2ADS (Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade). Integra a plataforma de investigação ID_CAI — IDENTIDADES_Colectivo de Acção e Investigação. Percurso múltiplo por vários caminhos, aparentemente dispersos, mas relacionados por uma atitude transversal de intervenção crítica. Forte envolvimento em acções interculturais, de índole artístico e cultural com comunidades em Moçambique, Brasil, Cabo Verde e Portugal. http://jcpaiva.pt/

Rejane Galvão Coutinho (IA/UNESP)

Graduada em Educação Artística pela Universidade Federal de Pernambuco (1988), mestrado (1998) e doutorado (2002) em Artes pela Universidade de São Paulo, Pós-doutorado pela Universidade Pública de Navarra, Espanha (2011/2012). É professora do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista, UNESP, onde atua na Licenciatura em Artes Visuais e na Pós-Graduação em Artes, área de Arte e Educação. Coordenadora do Mestrado Profissional em Artes, Prof-Artes, do Instituto de Artes da UNESP. Tem desenvolvido pesquisas com foco na história do ensino de artes e na formação de arte/educadores e mediadores culturais. http://lattes.cnpq.br/9150659098334633

Histórias para mapear o ensino artístico que temos e vislumbrar o que queremos

A História do ensino de artes no Brasil tem suas primeiras pesquisas publicadas na segunda metade do século XX por Ana Mae Barbosa (1978, 1982). Os principais marcos tomados como referência nesse primeiro panorama traçado estão alinhados com os marcos fundadores da história das artes, entrelaçados com a história da educação. A partir desse panorama o campo das pesquisas históricas vem se adensando, mas ainda de forma tímida, com outras pesquisas e outros traçados, sempre na perspectiva de uma historiografia do ensino artístico institucionalizado.

Sabemos que a consciência histórica é um importante instrumento de fortalecimento identitário e de superação das dependências e isso se torna ainda mais relevante quando estamos imersos em um contexto de práticas colonizadas e insistentemente reprodutoras como tem se mantido o campo instituído das artes.

Trazendo esta reflexão para o contexto da formação docente em artes, torna-se preocupante saber que são poucos os cursos, no Brasil, que trazem em seus currículos o tema da história do ensino de artes. A grande tônica histórica das formações docentes, assim como das formações artísticas, permanece no âmbito da história das artes pela perspectiva hegemônica. Não é à toa que boa parte das histórias do ensino artístico que temos continuam a reproduzir o que não queremos.

Como trabalhar no contexto da formação docente em artes para que uma consciência histórica atravesse as futuras e os futuros docentes e, sobretudo, chegue a atravessar suas práticas para que possamos vislumbrar outras narrativas?

Este tem sido um dos grandes desafios que vem orientando nossa prática de formação: possibilitar que as histórias pessoais possam ser entrelaçadas com as histórias coletivas. Desafio que vem sendo também atravessado pelas urgências contemporâneas, como as questões étnico-raciais; os desvelamentos decoloniais; os conflitos de gênero, isso tudo diante da crescente onda fascista que vem alarmando o mundo. Não podemos mais contar uma única história do ensino de artes, precisamos levantar os véus que encobrem as feridas.

Por tudo isto, neste diálogo entre Brasil e Portugal aproveito a oportunidade para compartilhar e comentar algumas estratégias de (des)construção de narrativas de história de vida com as artes para que possamos juntos avaliar a pertinência e o alcance dessas experiências e quem sabe vislumbrar o que queremos.

Rita Luciana Berti Bredariolli (IA/UNESP)

Doutora em Artes, linha de pesquisa Teoria, Ensino e Aprendizagem pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, ECA-USP e mestre pela mesma instituição. Possui Licenciatura e Bacharelado em Educação Artística com habilitação em Artes Plásticas pela Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP. Atualmente é professora Assistente Doutora do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista "Julio de Mesquita Filho", IA - UNESP e coordenadora do GPIHMAE (Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Imagem, História e Memória, Mediação, Arte e Educação) . Foi bolsista CAPES do Programa de Estágio Pós-Doutoral no Exterior, realizando sua pesquisa no Program in Art and Art Education do Teachers College, Columbia University. Tem experiência na área de Artes, com ênfase em Artes Visuais, atuando principalmente nos seguintes temas: imagem, memória, história, arte e educação. http://lattes.cnpq.br/0970761217541525

Luminescências: imagens, imaginação e outras pequenas revoluções políticas para uma poética de formação docente.
Da leveza, quando a escolheu como valor a ser preservado no século XXI, Ítalo Calvino (1986), revendo a literatura e poesia, depreendeu imagens de enfrentamento ao que parece ser, ou mais precisamente, ao que assumimos como realidade inelutável. A cada vez que o mundo lhe parecia condenado, buscava o voo, não como fuga, mas como possibilidade de mudança de ponto de vista, para alcançar outras formas de ver, outras formações do olhar, outras imagens, portanto, e assim elaborar outros entendimentos e modos de enfrentamentos. Ao invés de pedra, pensar metáfora, elaborando sentidos ao realizar conexões, correspondências, associações, ao mobilizar imagens pelo trabalho da imaginação. Ficções criadas, poeticamente, no encontro das indissociáveis ações sensíveis-inteligíveis que nos conduzem pelos processos de elaborações de conhecimentos, reconhecimentos e entendimentos de nossas realidades, de nossas realizações de realidades. A poesia como ação política. “Poesia não é um luxo”, é dela que “nos valemos para nomear o que ainda não tem nome, e que só então pode ser pensado”, e é ela capaz de criar fundamentos sob os quais sustentamos nossas “esperanças, nossos sonhos de sobrevivência e mudança, primeiro como linguagem” – como possibilidade de revolução dessa linguagem e mobilização de imagens – “depois como ideia”, engendrada por palavras e imagens, “e então como ação mais tangível”, citações de Audre Lorde (2019) destacadas desse seu texto pelo qual defende a poesia como ato político. Tomando aqui como político e política, “modos de subjetivação” (Rancière, 2018) de contrapartida à imperiosa “colonização da subjetividade” (Merlin, 2019). Diante de um contexto neoliberalista, da “grande luz” (Didi-Huberman, 2009), buscamos formas de trabalho que atuem como luminescências na “unidade inquebrantável entre a denúncia e o anúncio. Denúncia de uma realidade desumanizante e anúncio de uma realidade na qual as pessoas podem ser mais”, como definiu Paulo Freire (1987) a utopia. Buscamos, sobretudo, uma poética que enfatize o “anúncio” dessa unidade e consideramos que o jogo com a linguagem e com as imagens pode ser muito útil nesse sentido. Nada novo, mas uma tentativa de atualização de algo nomeado educação estética, assumindo tanto a educação quanto a estética como poéticas de legibilidade e agenciamento.

Sidiney Peterson Ferreira de Lima (IA/UNESP)

Doutorando, em Artes, pelo Instituto de Artes - UNESP - Área de Concentração de Arte e Educação; Linha de Pesquisa de Processos Artísticos, Experiências Educacionais e Mediação Cultural (ingresso em 2016); Mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP - na Linha de Ensino de Aprendizagem da Arte (2014); Graduado em Pedagogia pela Unidade Acadêmica de Garanhuns (UAG)/ Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE)-2010. Diretor de Relações Internacionais da Federação de Arte/Educadores do Brasil (biênio 2017/2018). Pesquisas nos grupos: Grupo de Estudo e Pesquisas sobre Imagem, História e Memória, Mediação, Arte e Educação (GPIHMAE); Grupo de Pesquisa Arte na Pedagogia (GPAP). Experiências na área de Educação, com ênfase em Educação em Museus e Mediação Cultural, atua como coordenador e supervisor de setores educativos em exposições de artes. Tem desenvolvido pesquisas com foco na História do ensino de Arte e formação docente, em arte, no Brasil e América Latina. http://lattes.cnpq.br/7897838185394600

Imersões e inversões: possibilidades poéticas e estéticas para processos de formação docente
O que é ser professor/a? O que é ser professor/a de artes? Quais caminhos você acredita ter que percorrer e onde deseja chegar com o seu ofício de professor/a, artista, pesquisador/a de/em artes? As perguntas são disparadoras de uma certa maneira de pensar e estruturar a experiência de formação no curso de Mestrado Profissional em Artes (PROF-ARTES) 1, no Instituto de Artes- UNESP. A experiência ocorreu no primeiro semestre de 2019 e contou com a participação de dezessetes participantes, sendo nove estudantes regularmente matriculadas/os no programa de pós-graduação e oito participantes do “Grupo de Pesquisa Dança, Estética e Educação” 2, coordenado pela docente Kathya Godói, do Instituto de Artes.

Denominada de “A experiência artística e a prática do ensino de artes na escola (abordagens metodológicas)”, a disciplina conta com 60h de atividades teóricas e práticas e, conforme apresentado na ementa, tem como objetivo “promover o contato da experiência artística e as práticas do ensino de artes na escola com enfoque na pesquisa de novas abordagens metodológicas; abordar as linguagens das artes em suas especificidades no contexto escolar; refletir sobre práticas artísticas e a possibilidade da experiência na escola” e “relacionar as praticas de ensino com as praticas artísticas, problematizar os conceitos de professor, artista, pesquisador”.

Ao trazer as perguntas na abertura, o fazemos porque as entendemos, em alguma medida, como potencialidades para os fazeres nas práticas de ensino e de pesquisa. Como afirma Daniel Bruno Momoli, as perguntas:

(...) se movimentam entre as afirmações até encontrar um espaço que permita a suspensão das certezas, borram fronteiras e alargam os limites em torno da maneira como lidamos com os objetos selecionados para uma pesquisa”. No entanto, algumas dessas interrogações permanecem sem respostas. Não porque sejam utópicas, nem mesmo porque são demasiadamente amplas, mas, talvez porque tenham um compromisso, manter vazio o lugar do saber. Não porque ele deve ser inacessível, nem porque ele é um segredo, mas porque ele convoca-nos a escrever sem a pretensão de dizer tudo, apenas como uma tentativa de transpor os limites conhecidos 3.

As perguntas provocam deslocamentos, necessários, em nosso modo de pensar, de agir, nos chama a “escrever sem a pretensão de dizer tudo”, somente como um modo, uma “tentativa” de “transpor os limites conhecidos”. Portanto, com este trabalho, orientado mais por questionamentos do que por respostas a oferecer, temos como objetivo problematizar e redimensionar a experiência desenvolvida, ampliando-a, convocando questões até então não pensadas: “o que é ser professor/a de artes”, diante das atuais medidas políticas, no contexto brasileiro? Como planejar e oferecer uma disciplina em parceria? Como trabalhar com professoras/es de artes que já atuam em escolas públicas? Como trabalhar a partir das vivências, memórias e colonialidades instituídas?

Ao colocar em disponibilidade nossa leitura e análise sobre a experiência, buscamos, em alguma medida, redimensioná-la, amarrá-la, fiá-la, organizá-la de outro modo, não para chegar a um lugar definido e comum do que ela seria, mas, sobretudo, como modo de tessitura que nos permite perturbar “certezas” e abrir espaços para que seja possível a experimentação e invenção de outros modos de pensar a formação de professores e professoras de artes.

1O Prof-Artes é um programa de mestrado profissional (stricto sensu) em Artes, com área de concentração em Ensino de Artes, reconhecido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) do Ministério da Educação (MEC). Coordenado pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), o Prof-Artes tem o objetivo de proporcionar formação continuada a docentes de Artes da educação básica pública, propondo discussões sobre o papel do ensino da arte na escola e na comunidade. O curso tem uma estrutura semipresencial, com a oferta de duas disciplinas de fundamentação a distância, três disciplinas obrigatórias e três optativas, além da realização de trabalho de conclusão orientado de forma presencial. Para participar do Prof-Artes, os candidatos deverão ser docentes da educação básica pública (ensino fundamental e ensino médio), portadores de diploma de nível superior reconhecidos pelo MEC e devem estar ministrando aulas de artes (Artes Cênicas, Artes Visuais e Música) em escolas ou museus. Fonte: www.capes.gov.br

2Para saber mais sobre o grupo, cf. www.ia.unesp.br

3 MOMOLI, Daniel. Regimes de circulação dos saberes: arte, educação e formação docente. Tese de doutorado. Programa de Pós-Graudaçnao em Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2019, p. 36.

Tiago Assis (i2ADS/FBAUP)

Tiago Assis é licenciado em Design de Comunicação pela Escola Superior de Artes e Design, tem um Master em Produção Multimédia pela Universidade de Barcelona e é doutorado pela Universidade de Valencia. Depois de ter desempenhado profissionalmente várias funções como Designer, iniciou a sua actividade como docente em 2001 na Escola Secundária Soares dos Reis, onde leccionou até 2007. É professor e investigador na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto desde 2008. Actualmente, investiga sobre tecnologia ao nível do poder, da cultura, da identidade e da linguagem no i2ADS. Este trabalho iniciou-se em 2001 a partir de experiências em comunidades info-excluídas no contexto do Identidades - Movimento Intercultural entre Moçambique, Cabo Verde, Brasil e Portugal. Esta investigação foca-se cada vez mais nos contextos da Educação Artística. https://www.cienciavitae.pt/0B10-DBCA-F65A

Síndrome de Porthos: Da crítica à paralização e a paralização como crítica e desnaturalização do dever-ser professor
A comunicação proposta, resulta de uma série de discussões com estudantes e colegas, no âmbito da formação pós-graduada, em particular, no Mestrado em Ensino de Artes Visuais no 3º Ciclo do Ensino Básico e no Ensino Secundário (MEAV) e no Doutoramento em Educação Artística (DEA). Dessas discussões tem emergido uma polarização entre o meu posicionamento inscrito numa ortodoxia da dúvida e uma assombração de paralisação a vários níveis. Aparentemente, há um medo de que uma ‘hipercrítica’ bloqueie a actividade de um professor. Perante esta ameaça restaria ao professor o seu dever-ser, na demanda dos perfis erguidos pelas directrizes globais e numa hiperactividade que há muito perdeu o sentido. No entanto, a paralização é um conceito velho, moribundo e de eficácia duvidosa. Qual será o receio de hoje em actualizar a paralização a partir de problemáticas como o ensino e a constituição de sujeitos como o professor e o estudante?

É na problematização destas questões que, apoiado no campo epistemológico da Educação Artística, no seu relacionamento com os campos da Arte e da Educação, pretendo lançar pontos de fuga que possam enquadrar a paralisação como lugar da acção.

Organização

i2ADS
Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade
CIIE
Centro de Investigação e Intervenção Educativas
ESMAE
Escola Superior de Música e de Artes do Espectáculo - IPP
FBAUP
Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto
FPCEUP
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto
IA/UNESP
Instituto de Artes da UNESP
IE/UL
Instituto de Educação da Universidade de Lisboa
FAEB
Federação de Arte Educadores do Brasil

Comissão Científica

  • Alexandra Sá Costa (CIIE/FPCEUP)
  • Ana Mae Barbosa (USP/Anhembi-Morumbi)
  • Ana Paz (IEUL)
  • Catarina Almeida (i2ADS/FBAUP)
  • Catarina S. Martins (i2ADS/FBAUP)
  • Jorge Ramos do Ó (IEUL)
  • José Afonso Medeiros Souza (UFPA)
  • José Carlos de Paiva (i2ADS/FBAUP)
  • Leda Guimarães (UFG)
  • Maria das Vitórias Negreiros do Amaral (PPGAV/UFPE)
  • Mário Azevedo (i2ADS/ESMAE)
  • Paulo Nogueira (i2ADS/FPCEUP)
  • Rejane Galvão Coutinho (IA/UNESP)
  • Rita Bredariolli (IA/UNESP)
  • Sidiney Peterson F. de Lima (IA/UNESP)
  • Tiago Assis (i2ADS/FBAUP)
  • Valéria Peixoto de Alencar (FMU)

Comissão Organizadora

  • Amanda Midori (i2ADS/FBAUP)
  • Bia Petrus (FBAUP)
  • Cristina Ferreira (i2ADS/FBAUP)
  • José Alberto Pinto (i2ADS/FBAUP)
  • José Carlos de Paiva (i2ADS/FBAUP)
  • Luísa Magalhães (i2ADS/FBAUP)
  • Pedro Amado (i2ADS/FBAUP)
  • Sidiney Peterson F. de Lima (IA/UNESP)

Secretariado

  • Fabrício Fava (i2ADS/FBAUP)
  • Joana Carneiro (i2ADS/FBAUP)
  • Margarida Dias (i2ADS/FBAUP)

Voluntários

  • Anna Carolina Cosentino (FBAUP)
  • Mariana Delgado
  • Tiago Pinho
  • Rita Raínho (i2ADS/FBAUP)

Contacto

Para mais informações contactar o i2ADS – Institudo de Investigação em Arte e Design por email:

Ou dirija-se à secretaria do i2ADS na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto:

Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade
Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto
Avenida Rodrigues de Freitas, 265
Sala PC207 e 208
4049-021 Porto | Portugal